A primeira postagem nunca é fácil. Aliás, o primeiro qualquer coisa nunca é fácil, pois a expectativa do pensar uma coisa e fazer uma completamente diferente é complicada. Aí você decide se quer ajustar sua expectativa a realidade ou sua realidade à expectativa. Mas o mote do texto não é esse. Nunca é fácil viver, pois isso implica descobrir, aprender, sofrer, entender e MUDAR. Mudar é a parte mais complicada de assimilar, mas tudo muda o tempo inteiro. Como a frase atribuída a Heráclito, o filosofo obscuro, "O homem que volta ao mesmo rio, nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem". Então se tudo muda o tempo inteiro, qual o problema de mudar? Viver e mudar nos dias de hoje é muito mais rápido: a adolescência encurtou, a carreira é relâmpago, o estudo é fragmentado, os prazeres são parcelados e todo o resto passa tão rápido que o rio está virando um jorro d´água numa velocidade gigante, uma voçoroca! A juventude que cresce nesse ritmo não se contenta mais em ficar, é uma juventude de "ir" em uma estrutura de "ficar". Ficar é estabelecer raízes sólidas, uma casa, uma família, uma renda, uma carreira e etc etc etc. Coisas que nossos pais sempre buscaram e sempre tiveram como referencial da vida perfeita. (Se quiser entender rápido e o parágrafo estiver enfadonho veja o vídeo abaixo :))
O vídeo acima é de uma empresa de tendência e inovação, eles ficam de olho no comportamento de um dos maiores mercados consumidores, os jovens. Ele já é velho, de 2010, mas expressa bem o momento que muitos de nós estamos passando. Somos uma geração de "ir", de criar raízes com tudo, de entender de tudo, de ultrapassar fronteiras e de criar novas formas de nos organizarmos. (fica a dica desse site de uma experiência maneira: Nômades Digitais). A estrutura de hoje ainda é uma estrutura de "ficar", poucas pessoas conseguem manter uma vida nômade com qualidade. O que fica na cabeça hoje é: temos pouco tempo, então temos que conhecer o máximo possível de coisas, causar o máximo de impacto que conseguirmos. O não alcançar esse objetivo nos causa um sentimento retardado de prisão e enclausuramento, uma certa angústia de não estarmos fazendo nada de interessante. Parece sempre que os outros estão fazendo isso e nós não, ainda mais quando abrimos o Facebook e o Instagram e as pessoas selecionam as partes mais interessantes e divertidas de suas vidas para compartilhar. Parece sempre que as nossas parcelas de felicidade são menores, mais caras e cobram mais juros! É a vida e felicidade líquida que o encantador Zigmunt Baumann vem falando (Vídeo e nome do livro no final do post), tudo acaba sendo instantâneo e superficial, até o amor, segundo ele, é líquido. Se é um problema, não sabemos ainda. As futuras gerações talvez possam desfrutar da criticidade sobre o assunto que só o tempo pode ajudar a construir.
Dito tudo isso, muitas pessoas acham que essa nova geração tem liberdade demais, escolhas demais e etc. E por conta disso demoram a crescer e amadurecer. No entanto, eu vejo de outra forma, a geração atual não se contenta em fazer qualquer coisa em qualquer lugar, cumprir um papel social determinado apenas para garantir renda, casa e comida. As coisas devem fazer sentido. Escolher uma profissão hoje é muito mais difícil do que há alguns anos, vemos muitos jovens saindo e entrando em diversos e diferentes cursos, pois não se sentem contemplados com nenhum deles. Pessoas hoje fazem mais de um curso não para colocar no currículo, mas sim para se sentirem completos com aquilo que aprendem. A mesma coisa se observa no trabalho, buscamos hoje achar o "trabalho que completa" (fulfilling work) como escreve Roman Krznaric, um dos criadores da School of Life em Londres. O trabalho que completa é aquele no qual temos aptidão e que tem sentido tanto para você quanto para a sociedade, ou a comunidade da qual faz parte. Por isso é tão difícil escolher nos dias de hoje, em alguns casos queremos trilhar caminhos que ainda não existem. Fazemos eficientemente muitas coisas inúteis (digo produção de bens e serviços mesmo, economicamente poderíamos estar empregando energia e tempo em coisas mais interessantes), tudo virou serviço e tudo pode ser monetizado. Quando essa geração se defronta com o mundo adulto do trabalho fica um pouco perdida. Mas logo entende, que veio para quebrar alguns paradigmas e não fortalecê-los. A vida adulta não deve ser chata, nem um fardo, deve ser completa de experiências enriquecedoras (não no sentido monetário!), assim como a infância.
Destarte, você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a proposta do blog. Nietzsche em "Assim falou Zaratrusta" concebe o "Além-do-Homem" (Übermensch), um homem que deixa o homem como ele é hoje para trás, o "último - homem". Prefiro entender o conceito da maneira mais simples, definir o "Além - Homem" como a superação das formas como vemos o mundo, entendemos as diferenças (sejam elas físicas, de orientação sexual, religiosas e políticas) e nos organizamos afim de sempre tentar ir além do que já foi feito (O conceito de Nietzsche é bem mais complexo e está inserido no contexto da oposição à fé religiosa, niilismo e ao europeu moderno. Dica: A Razão Inadequada). Assim, considero que o próximo período poderia ser uma pós - humanidade como a conhecemos, e ela está nascendo hoje, dessa forma o blog irá tentar captar as tendências dessa nova cultura humana através de temas como educação, meio ambiente, cultura diversas, economia, literatura e outros assuntos que nos são caros no dia - a - dia e que raramente notamos que está em completa mudança e transformação.
Vídeo: Zigmunt Bauman - Fronteiras do Pensamento 30:25 Assista com tempo!
Livro: A arte da Vida
A Modernidade Líquida